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Será que aprendemos a ter medo do sol?

  • prconcept
  • há 1 dia
  • 5 min de leitura

Durante milhares de anos procurámos o sol. Hoje fazemos quase tudo para o evitar.





Mulher com cabelo encaracolado expõe suavemente a região lombar ao sol durante o verão, evocando a prática tradicional chinesa Shài Bèi e a relação entre a luz solar e a saúde.




Durante quase toda a história da humanidade, o sol foi sinónimo de vida.

Marcava o ritmo dos dias, das colheitas e das estações. Aquecia o corpo, secava os alimentos, permitia trabalhar a terra e fazia parte dos hábitos quotidianos de praticamente todas as culturas.


Hoje, a relação parece ser diferente.


Aplicamos protetor solar antes de sair de casa. Procuramos a sombra. Evitamos as horas de maior calor. Crescemos a ouvir que o sol envelhece a pele e aumenta o risco de cancro cutâneo.

E tudo isto tem fundamento.

A exposição excessiva aos raios ultravioleta está claramente associada ao envelhecimento precoce da pele, às queimaduras solares e ao aumento do risco de cancro cutâneo.


Mas talvez exista uma pergunta que fazemos cada vez menos.


Será que o problema é o sol... ou a forma como nos expomos a ele?



Um hábito que ainda hoje surpreende quem visita a China

Se viajar pela China durante o Verão poderá reparar numa cena curiosa.

Em parques, jardins ou junto às casas, algumas pessoas levantam ligeiramente a camisola durante alguns minutos e deixam que o sol aqueça diretamente a região lombar.


Esta prática chama-se Shài Bèi (晒背).

À primeira vista pode parecer apenas uma tradição antiga.

Na Medicina Tradicional Chinesa, representa algo muito mais profundo: a relação entre o ser humano e os ciclos da natureza.


O Verão corresponde ao período em que o Yang, a energia associada ao calor, ao movimento e à vitalidade, atinge a sua expressão máxima.


Segundo esta perspetiva, é precisamente nesta estação que o organismo está mais preparado para receber o calor da natureza e fortalecer a sua capacidade de adaptação aos meses frios que se aproximam.

Não se trata de permanecer horas ao sol.

Trata-se de utilizar o calor de forma consciente, respeitando o momento do ano e as características de cada pessoa.



Porque é precisamente a região lombar?

Na Medicina Tradicional Chinesa, a escolha da lombar não é aleatória.

É nesta região que se encontra a área funcional dos Rins, considerados a raiz da energia vital do organismo.

É também aqui que percorre o Du Mai, ou Vaso Governador, um dos principais meridianos Yang do corpo, tradicionalmente associado à força, ao aquecimento e à capacidade funcional.


Segundo esta tradição, expor suavemente a região lombar ao sol durante alguns minutos ajuda a nutrir o Yang e a preparar o organismo para enfrentar melhor o outono e o inverno.

Independentemente da linguagem utilizada, existe uma ideia interessante: aproveitar o Verão para reforçar a capacidade de adaptação do organismo, em vez de esperar que o frio chegue para começar a cuidar da saúde.



O que nos diz a ciência?

Embora utilize conceitos diferentes, a ciência moderna também reconhece que a luz solar influencia profundamente o funcionamento do organismo.

Uma exposição adequada contribui para a síntese de vitamina D, ajuda a regular o ritmo circadiano, influencia a produção de hormonas relacionadas com o sono e o humor e desempenha um papel importante em diferentes processos fisiológicos.


Ao mesmo tempo, também sabemos que a exposição excessiva aos raios ultravioleta aumenta o risco de lesões cutâneas.

Estas duas afirmações não são incompatíveis.

Pelo contrário.

Lembram-nos que, em saúde, o benefício e o risco dependem muitas vezes da dose, da duração da exposição e do contexto.



Será que o protetor solar resolve tudo?

O protetor solar continua a ser uma ferramenta importante para reduzir os danos provocados pela radiação ultravioleta.

Mas existe um fenómeno interessante descrito pela ciência do comportamento: a compensação comportamental.

Quando nos sentimos mais protegidos, tendemos, muitas vezes sem dar por isso, a aceitar um risco maior.


É o mesmo princípio observado noutros contextos, como na condução. Um automóvel mais seguro pode levar algumas pessoas a conduzir de forma menos prudente.

Com o protetor solar pode acontecer algo semelhante.

Ao sentirmo-nos protegidos, permanecemos mais tempo ao sol, procuramos menos a sombra, usamos menos roupa protetora ou esquecemo-nos de reaplicar o produto com a frequência recomendada.

O problema, nestes casos, não está no protetor solar.

Está na falsa sensação de segurança que pode alterar o nosso comportamento.

Por isso, a proteção solar não deve ser vista apenas como a aplicação de um creme. Inclui também escolher as horas de menor intensidade solar, procurar sombra quando necessário, utilizar vestuário adequado e evitar exposições prolongadas, sobretudo nos períodos de maior radiação.



O que sabemos hoje sobre os protetores solares?

Os protetores solares representam uma das estratégias mais eficazes para reduzir o risco de queimaduras solares e de cancro cutâneo quando utilizados corretamente.


No entanto, a investigação continua a evoluir.

Nos últimos anos verificou-se que alguns filtros químicos, como a oxibenzona, octocrileno, avobenzona, homosalato ou octisalato, conseguem atravessar a barreira cutânea e ser detetados na circulação sanguínea após alguns dias de utilização repetida.

É importante interpretar estes dados com rigor.


A presença destas substâncias no sangue não significa que sejam prejudiciais, mas demonstra que existe absorção sistémica e que alguns ingredientes continuam a ser estudados para compreender melhor os efeitos de uma utilização diária durante muitos anos.


Esta é uma das razões pelas quais muitas pessoas optam por protetores com filtros minerais, sobretudo para bebés, crianças, grávidas ou pessoas com pele muito sensível.


Outra questão que continua a ser debatida é a produção de vitamina D.

Na maioria das situações do dia a dia, os estudos sugerem que o protetor solar tem um impacto reduzido na síntese de vitamina D, porque a aplicação raramente é perfeita e continuamos a receber alguma radiação UVB.

Contudo, um ensaio realizado na Austrália verificou que participantes que utilizaram protetor solar SPF 50+ diariamente durante um ano apresentaram um aumento da prevalência de deficiência de vitamina D, de 37% para 46%.


Este resultado não significa que devamos deixar de utilizar protetor solar, mas recorda-nos que uma proteção muito rigorosa e permanente poderá reduzir a produção de vitamina D em algumas pessoas, particularmente quando coexistem outros fatores de risco para deficiência.




Talvez a verdadeira questão seja o equilíbrio

A Medicina Tradicional Chinesa nunca encarou o sol apenas como uma fonte de calor.

Via-o como parte da relação entre o ser humano e a natureza.

Cada estação oferecia oportunidades diferentes para fortalecer o organismo através da alimentação, do movimento, do descanso e da forma como nos relacionamos com o ambiente.


Hoje temos muito mais conhecimento científico sobre os efeitos da radiação ultravioleta.

Mas também passamos grande parte do dia em ambientes fechados, sob luz artificial, afastados dos ritmos naturais que acompanharam a evolução humana durante milhares de anos.

Talvez o desafio não seja escolher entre evitar completamente o sol ou permanecer horas debaixo dele.

Talvez o desafio seja voltar a aprender a relacionarmo-nos com ele de forma consciente.



O que podemos aprender com o Shài Bèi?

Mais do que copiar um hábito tradicional, talvez a maior lição seja esta:



A saúde não depende apenas daquilo que fazemos quando estamos doentes.


Constrói-se diariamente na forma como dormimos, nos alimentamos, nos movimentamos e nos relacionamos com o ambiente que nos rodeia.


O Shài Bèi recorda-nos uma ideia simples: cada estação oferece oportunidades diferentes para cuidar do organismo.

Talvez não seja necessário adotar todos os hábitos da Medicina Tradicional Chinesa.

Mas vale a pena recuperar uma forma de pensar que continua surpreendentemente atual.


A natureza não é apenas o cenário onde vivemos.

Continua a ser um dos fatores que mais influencia a nossa saúde. Aprender a usufruir dela com conhecimento, equilíbrio e bom senso pode ser uma das formas mais simples de cuidar do organismo ao longo da vida.


 
 
 

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